Publicado por: andré | Maio 20, 2009

Eufuísmo irônico

Escrever opiniões é atitude egocêntrica. Nunca soube de motivo convincente (a não ser, claro, o salário recebido por poucos fortunados) para expor o que se pensa.

Ah! Mas nos dizem os mais românticos que não se escolhe o caminho de escritor,  se nasce escritor! Para eles,  a escrita é necessidade de primeira grandeza, equiparável às funções controladas pelo bulbo raquidiano. Um dom divino,  um corante que tinge o sangue de azul e os distingue da ralé.  Ser escritor, nesse caso, é ser humano –  escrever, respirar (em alguns casos graves em que o romantismo atinge estágios terminais, escrever é transar). Não faltam argumentos  da parte deles que sustentem tal visão- e como é difícil combatê-los, esses mestres da retórica impressa! -,   todos cheios de teses perfeitamente lógicas.  Malabarismos sintáticos (e fonéticos, nos textos mais abusados)  sobejam. Textos bem escritos com teses absurdas me irritam. Uma boca, duas orelhas, por favor. Senão não dá.

Eu discordo: não, não se nasce escritor. Se nasce pelado, careca, coberto de placenta e com um cordão umbilical roxo;  completamente burro e analfabeto. A escrita surge bem depois. Não pretendo explicar porque penso assim. Opinião pessoal, simplesmente.  Y el mayor fiscal de mis obras soy yo, dizem as más línguas.

Por discordar, creio piamente,  com fervor católico pré-reforma, que textos “de opinião” são a atitude mais auto-centrada que conheço. Acreditar que eles venham a interessar a alguém é acreditar que o mundo todo estarve (se o anglicismo me é permitido) por um pouco desses escritores. Desprovidos da desculpa clichê que diz que  ”escrever é dom divino” e que eles  são arrebatados por ímpetos criativos incontroláveis, percebe-se que não passam de opinistas de meia tijela.

E os opinistas sonham com espelhos espalhados pelo mundo. Esperam, anseiam, fantasiam com a imagem deles pregadas por aí, como cartazes subversivos no centro da cidade. Por fim, se conformam e escrevem. Compensam a falta lançando por aí partes de si em forma de textos.

Se reconhece um opinista de pronto. Vê-se logo as largas narinas dilatadas,  sobrancelhas grossas e pretas, sempre contraídas, como se as rugas na testa filtrassem o mundo, preparando-o para um contato sublime com o cérebro escondido por baixo dos cabelos bagunçados.

Não sei, e também acho que não procuro saber,  porquê cargas d’água hão tantos blogs por aí (o número de blogs é tão grande que é de bom tamanho abrir exceção e utilizar o plural, mesmo que errado),  propagando a cultura opinista aos quatro ventos e sete mares.

Hoje acordei feliz! Triste! Curioso. Acordei e esqueci de ir à escola! Trabalho! Praia. Adoro The Strokes! Of Montreal! Giovanni Pierluigi da Palestrina.

É preciso mesmo dizer que  pouco importa? Que não interessa?

Os blogs, definitivamente, são a escória da literatura. E essa onda de dizer que a salvação do escritor é a liberdade de qualquer um escrever o que quiser como quiser quando quiser e usando marcas de pontuação importantes como a vírgula se quiser (e como quiser), se souber, é uma grande merda.  Mesmo.  Ficou mais difícil ler algo bom, ficou mais complicado separar o joio do trigo, nessa plantation transgênica de protoescritores. Se qualquer um pode, então por que não? Cria-se em dois minutos um blog bonitinho e vualá (escrever galicismos em francês é muito démodé)! Está criado um escritor que antigamente seria cruelmente trucidado pela seleção natural literária.

Há grande número de pessoas que credita à internet e aos blogs a criação de uma nova maneira de se escrever, um novo tipo de literatura, um “avanço”.

Novamente discordo.

O New Journalism e o Gonzo precedem cronologicamente a internet. Norman Mailer e Kurt Vonnegut não tinham blog.

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Eu poderia muito bem existir sem escrever. Não é natural essa coisa de criar, criar, criar. Nunca vi cachorro com impulsos criativos que os levassem a fazer o que quer que fosse.

Meu norte moral é a vida canina.

Mas resolvi ir contra minha maré. A partir de hoje, escrevo um blog.

Publicado por: andré | Maio 16, 2009

Pegadas




Seguir-se
Buscar-se
Olhar-se

Inútil

Eu vivo
Descrente
Da catarse.

Publicado por: andré | Janeiro 10, 2009

O pleonasmo divino

Esse blog está abandonado. Fato.

Dizem os ímpios que já fede há tempos.

Tal qual Jesus,  pleonasticamente grito para ele:  ”Lázaro,  saia para fora!”.

Efetivando a ressurreição, duas poesias antagônicas.

 

Nascente

   

Em silêncio, calado,

Imóvel,

Procuro no horizonte a fixidez que me falta.

Estrelas? Lua?

Não me movo.

Insisto, procuro.

O dia amanhece

E o Sol não me salva.

Sozinho me dou conta que ser real

É isto.
 

Poente

 Espero ainda.

Sentado num muro de uma rua pacata bem longe do centro

- excêntrica ? -

Assito àquilo que passa invisível.


Estendo a mão e sinto o vento que não bate.

Deixar-se cair?

Continuo olhando.

A vida passa,

O vento passa,

Até mesmo a rua passa.


Eu e meu muro continuamos.


Aceno um adeus tímido.


Lentamente

Funde-se ao horizonte

Aquela coisa misteriosa

Que convencionei chamar de eu.

Publicado por: andré | Março 23, 2008

Bem amigos da rede globo…

 Sem saber como começar, começo como Galvão Bueno. Nunca soube o sentido dessa pérola do jornalismo esportivo tupiniquim, extremamente fática, mas não enfática - e um pouco canalha (no sentido canino da coisa). Então acho que serve de começo. Resume um hábito meu: sem ter o que falar, falo nada, mas falo.

E depois do começo, o que vier vai começar a ser o fim.

Vai, então, um “manifesto” meio gauche, que sonha ser Carlos na vida.

Resolvi começar a escrever. Não poemas líricos habilíssimos ou contos altamente ambiciosos. Simplesmente escrever, sem mais. Algo como um Seinfeld literal, sem metade da graça e os já clássicos tênis impecavelmente brancos. De branco, só o fundo da tela.

Pra quê? Me pergunto. Por quê? Acontece, se é que isso vale de explicação, que abandonei o binômio causa/conseqüência há algum tempo. Escrevo sem motivos e sem ansiar resultados.

Não anseio méritos nem respaldo. Se meu texto não é bom, não me importo. Retifico-me: se não consigo nem distinguir um texto bom de um ruim, com que tábua de valores julgarei o que sai de minha cabeça?

Não procuro evitar clichês, fugir de chavões e de opiniões consideradas senso-comum. Não quero me aborrecer. Não quero ser o ourives sandeu que diz “morra eu também!”, “vibrando a lança, em prol do Estilo”. Pro diabo o estilo. Não tenho fé, não tenho o que professar. Não busco o ético, tampouco o estético. Não tenho objetivos sublimes – “hercúleos e belos” – que me guiem e norteiem “minha prosa” (algo tão abstrato quanto “prosa” não pode ser precedido por um pronome possessivo).

Não quero a língua sublime e acadêmica; e não quero o que sai da boca do povo. Me dê um cigarro – Dê-me um cigarro? Tudo a mesma bosta. Não fumo.

É um capricho meu permitir-me que eu não tenha opiniões formadas sobre nada e limitar-me a repetir como um louco que “não sou nada, não posso querer ser nada” como resposta a qualquer pergunta que me façam. Não sou nada mesmo. Mas, definitivamente, trago em mim todos os sonhos do mundo.

Escreverei, portanto, como um sonhador que se apodera de todos os sonhos do mundo e os concentra no breve instante de escrever. Sinto-os todos com as palmas das mãos, mas não sou burro o suficiente para acreditar que posso agarrá-los. Tenho consciência de que não existe algo que poderá, algum dia, ser efetivamente meu. Se não sou nada, não posso almejar nada além disso.

Entretanto, posso sonhar. E, desse modo, escrever. É meu modo de manter-me no instante que sempre insiste em passar.

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